quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Os Frutos da Paz
Por Flávia Ferreira

Na Rua Londrina, em Jardim Pernambuco, havia um terreno com uma casa abandonada. Em meio a inúmeras árvores frutíferas, uma esplêndida mangueira despertava um misto de admiração e gula. Os vizinhos diziam que ali tinha a melhor manga das redondezas. Arlete Severo, 24 anos, contou essa história para a turma C da Escola Municipal José Ribeiro Guimarães na quarta-feira.

"Toda a vizinhança comenta que o dono abandonou a casa depois da morte de sua esposa. Para ele, não havia mais razão para ficar. As lembranças iriam atormentá-lo todos os dias. A solidão fez dele um homem rabugento, tratando mal todas as pessoas que procuravam consolá-lo. Cada vez mais solitário, deixou de dar mangas para as pessoas, mesmo com o pé tombando de tão carregadinho. Ele dizia que lugar bom de encontrar manga era no sacolão, quem quiser que fosse lá."

Toda a comunidade adorou quando ele resolveu ir embora. Ficariam livre de seu mau humor , e teriam manga de graça,e da melhor qualidade. Mas depois de dois anos, ele reapareceu e surpreendeu um par de chinelos embaixo da sua árvore de mangas espadas. Mas em vez de dar uma correria no menino, ele catou as mangas que estavam no chão e colocou-as em uma bacia.

Chupe todas as mangas
Quando o menino desceu, surpreendeu-se duplamente. Primeiro com a reaparição do dono do terreno e depois com a reação dele. "Você vai chupar todas essas mangas", ordenou ele. Mas para o moleque aquilo foi um prazer.

Depois de chupar todas as mangas, o menino saiu falando na rua que, além da melhor manga, naquele quintal morava o melhor vizinho do bairro. O velho malvado deixara-o comer uma bacia cheia de mangas. "Custei a acreditar que não levei nenhuma paulada", disse ele, rindo.

A história do menino se espalhou pelo bairro rapidamente Todos os dias, vinha gente bater em seu portão com uma bacia na mão, pedindo manga. Sua dificuldade de dizer não terminou fazendo dele a pessoa mais popular da vizinhança.

Pouco depois de sua morte, a mangueira começou a definhar até cair, seca. Os dois deixaram muitas saudades no bairro.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Meu pé de jamelão

Suane Almawy de Oliveira tem 19 anos, é casada e mãe de Ana Clara, uma menina de um ano. Estuda no terceiro ano do Ensino Médio na Escola Natividade Patrícia Antunes e relembra com saudade as lembranças de um tempo, para ela distante.

Havia um pé de jamelão no quintal da sua casa. Era lá que diariamente ela, seus três irmãos e uma prima se divertiam. "Nós, meninas, ficávamos embaixo, enquanto os meninos se revezavam subindo na árvore", lembrou Suana. Eles subiam, colhiam e levavam as frutas para as meninas. Depois era uma farra, que ficava ainda melhor porque a mãe não se importava com as manchas na roupa. "Ela tinha a maior trabalheira na hora de lavar, mas não reclamava.

"Para não dizer que não havia nenhum estresse naquela brincadeira, o pai não gostava nem um pouco. "Ele tinha medo que a gente caísse em cima de um poço artesiano que havia perto." Parte do receio dele se devia à história de uma criança, que caiu dentro de um poço e sumiu. Seu irmão Mauro caía a toda hora. "Era um banana", lembra Suana. "Parece que não tem muito equilíbrio, vive caindo. Há uns três meses caiu de uma árvore e ficou desacordado uns dois minutos, deu um susto danado."

Manga com sabor de jamelão
Cansado de ser desobedecido, o pai resolveu derrubar a árvore. Em regime de mutirão, ele, um tio de Suana e os vizinhos a cortaram. "Nós ficamos ali sentados com a cara mais triste, sem poder fazer nada para impedir a derrubada." Para Suana, seus irmãos e sua prima sentiram tanto como se estivessem perdendo um animal doméstico. "Tive vários animais de estimação, mas gostava mesmo de meu pé de jamelão. Até hoje choro e digo para meu pai: 'por que cortou minha árvore, gostava tanto dela'.

Suana jamais esqueceu aquelas tardes comendo jamelão sem parar. "Nada se compara a comer uma fruta colhida na hora", diz ela. Para matar a saudade, ela está construindo uma casinha em um terreno que comprou. "Lá quero ter muitas plantas, vou plantar uma mangueira para ver se esqueço meu pé de jamelão".

Um tombo quase fatal

por Desirée Raian

Roseane não tem uma relação muito feliz com as árvores. Por volta dos seus seis anos, ela brincava em uma mangueira que havia em seu quintal com as amigas. Era sua maior diversão. Subiram para pegar manga, brincavam de pular e ficar penduradas de galho em galho, á maneira dos macacos, ou da Jane do Tarzan. Maria Roseane era sempre a mais ousada, gostava de se mostrar. Um dia resolveu subir na árvore e acabou caindo em cima da sua casa, pois a árvore era tão alta, que ia além do telhado. Distraída, Roseane quebrou as telhas e caiu de uma altura de pelo menos cinco metros. Ficou estatelada no chão, sem forças sequer para respirar. Esperava que alguém a socorresse.

Apesar do susto, a "arteira" Maria Roseane continuou a brincar na árvore. Já com sete anos, a macaquinha viu uma enorme manga na ponta de um galho e foi tentar pegá-la. O galho não suportou seu peso e quebrou. O descuido quase foi fatal. Além da queda, um pedaço de um galho entrou em suas axilas. "Urrei de dor", lembra. "Minha mãe ficou desesperada." Resultado: teve que fazer uma microcirurgia.

Traumatizada, Maria Roseane jamais voltou a subir na árvore. Hoje ela conta a história e até acha graça. Carrega consigo uma cicatriz, como lembrança das travessuras. A árvore já não existe mais. Com o tempo, apodreceu e caiu.